Vinhos de Neuquén no Brasil: identidade patagônica, diversidade e gastronomia
Do Malbec ao Pinot Noir, dos brancos aos espumantes, os vinhos de Neuquén encontram diferentes possibilidades de diálogo com a gastronomia brasileira. Uma relação que já existe no comércio e merece ser compreendida também à mesa.
Por Sergio Landoni · Sommelier de Território e Embaixador do Vinho Neuquino · 29 de outubro de 2026

Uma relação que já existe
Uma garrafa de vinho de Neuquén sobre uma mesa brasileira reúne dois lugares que, à primeira vista, parecem ter pouco em comum. De um lado, os vinhedos da Patagônia argentina, com seus ventos, sua luz intensa e as grandes diferenças de temperatura entre o dia e a noite. Do outro, uma gastronomia que muda de ingredientes, sotaques e tradições de uma região para outra. O encontro, porém, não é tão improvável quanto parece.
Em 2023, o Brasil recebeu 34,6% do volume de vinho exportado por Neuquén, segundo dados do Instituto Nacional de Vitivinicultura (INV). A província exportou 10.770 hectolitros naquele ano, com valor FOB de aproximadamente US$ 4,96 milhões. Em 2025, durante a ProWine São Paulo, representantes do Centro PyME-ADENEU voltaram a destacar o Brasil como principal destino externo dos vinhos neuquinos.
Os números ajudam a dimensionar uma relação comercial que já existe. Mas não explicam o que acontece quando esses vinhos chegam à taça, muito menos quando encontram a comida. E talvez seja justamente aí que a história fique mais interessante.
Uma província, diferentes paisagens
Neuquén fica no norte da Patagônia argentina. Para quem conhece a região pelos lagos e pelas montanhas, pode surpreender descobrir que boa parte de seus vinhedos cresce em paisagens áridas, irrigadas com água proveniente dos sistemas fluviais andinos.
San Patricio del Chañar e Añelo concentram grande parte da produção, mas não contam toda a história. Há projetos em outros setores da província, desde os vales dos rios até áreas próximas à Cordilheira. As condições mudam: solo, altitude, exposição, disponibilidade de água e decisões de cultivo. Por isso, prefiro falar de vinhos de Neuquén no plural. Um território não se resume a uma paisagem, e uma paisagem não garante, sozinha, um determinado estilo de vinho.
A amplitude térmica e o vento participam da vida de muitos vinhedos. O que chega à garrafa, entretanto, também depende de quem cultiva, escolhe a data de colheita e conduz a elaboração.

Malbec, Pinot Noir e outras maneiras de contar Neuquén
O Malbec, tão familiar ao consumidor brasileiro, também tem peso nas exportações neuquinas. Em 2023, representou 37,7% do volume exportado pela província. O Cabernet Sauvignon respondeu por 31,2%, o Pinot Noir por 16,9% e o Chardonnay por 5%. São percentuais das exportações totais de Neuquén, não uma divisão específica dos vinhos vendidos ao Brasil.
Gosto de observar como uma mesma variedade muda quando muda o lugar. Um Malbec de Neuquén pode combinar fruta nítida, acidez e estrutura sem precisar repetir o perfil de outras regiões argentinas. O Cabernet Sauvignon encontra espaço em vinhos de maior corpo; o Cabernet Franc pode surpreender com sua expressão aromática e sua facilidade de conversa com a comida.
O Pinot Noir tem um significado particular para a identidade vitivinícola neuquina. Entre suas interpretações mais interessantes estão aquelas que preservam a fruta vermelha, o frescor e a delicadeza dos taninos. Sempre me atraiu a capacidade dessa variedade de transmitir complexidade sem depender da potência. Isso não significa que todos os Pinot Noir da província sejam leves, nem que exista um único modelo correto. Significa reconhecer uma possibilidade valiosa de expressão.
E há mais para descobrir. Chardonnay e Sauvignon Blanc, rosés e espumantes ampliam a conversa. Quando pensamos na gastronomia brasileira, essa diversidade deixa de ser um detalhe.

O encontro com a mesa brasileira
A cozinha brasileira não cabe em uma única descrição. Basta pensar nas diferenças entre uma galinhada, uma feijoada, um churrasco e uma moqueca para perceber que a pergunta não pode ser simplesmente “qual vinho combina com comida brasileira?”.
Uma galinhada, dependendo dos temperos e do preparo, pode conversar muito bem com um Pinot Noir de boa acidez e taninos delicados. O mesmo vinho pode acompanhar aves assadas, cogumelos ou certas preparações com carne suína. Já uma feijoada exige mais cuidado: gordura, sal, carnes defumadas e intensidade podem superar um tinto excessivamente delicado. Um vinho de maior estrutura, ou até um espumante com acidez viva, merece entrar na experiência.
No churrasco, o corte e o ponto da carne fazem diferença. Uma picanha pode encontrar bons parceiros em Malbec ou Cabernet Franc; preparações mais intensas podem pedir um Cabernet Sauvignon. Não é uma questão de escolher o tinto mais potente, mas de encontrar equilíbrio entre textura, gordura, sabor e vinho.

Nem sempre o melhor encontro é com um tinto
Uma moqueca com leite de coco, azeite de dendê, ervas e pimenta apresenta outra lógica. A textura e a intensidade dos ingredientes podem favorecer um Chardonnay bem escolhido, um rosé ou um espumante. O mesmo vale para um bobó de camarão: o frescor do vinho precisa dialogar com a cremosidade e os condimentos, sem disputar espaço com o prato.
Um Sauvignon Blanc de perfil adequado pode acompanhar preparações com ervas frescas e peixes. Mas nenhuma dessas sugestões é uma regra. A receita muda de casa para casa, e o vinho muda de produtor para produtor. A melhor harmonização costuma começar pela curiosidade e pela disposição de provar.
É isso que me interessa nesse encontro entre Neuquén e Brasil: não adaptar artificialmente um vinho a um mercado, mas descobrir onde duas identidades gastronômicas podem se valorizar mutuamente.

As pessoas por trás das garrafas
Em 2025, Malma, Primogénito, Secreto Patagónico, Mabellini, Familia Schroeder e Aicardi participaram da ProWine São Paulo, com apoio institucional à promoção dos vinhos neuquinos. A participação em uma feira não equivale, por si só, a exportações regulares. É, no entanto, uma oportunidade concreta para apresentar projetos, ouvir importadores e construir relações.
Segundo informações divulgadas pelo governo provincial, a Familia Schroeder havia feito contatos prévios com cerca de quinze importadores brasileiros para organizar encontros comerciais. Por trás de uma garrafa que chega a outro país existem produtores, equipes técnicas, distribuidores e profissionais que ajudam a contar sua origem.
Esse trabalho ganha força quando o vinho não é apresentado apenas como mais uma etiqueta argentina, mas como parte de uma região que tem histórias e diferenças próprias.

Uma conversa que vale continuar
O Brasil já ocupa um lugar importante nas exportações de vinho de Neuquén. Mas a relação pode ser muito mais interessante do que uma estatística. Uma taça de Pinot Noir com uma galinhada, um Malbec diante de uma picanha, um branco neuquino ao lado de uma moqueca: são possibilidades, não fórmulas.
Para mim, o melhor resultado é quando o vinho conserva o que tem de verdadeiro e encontra alguém disposto a conhecê-lo. Neuquén tem muito a mostrar, e a mesa brasileira oferece excelentes motivos para começar essa conversa.
Fontes e referências
- Instituto Nacional de Vitivinicultura (INV), informe Neuquén 2023: exportações, valor FOB e variedades.
- Neuquén Informa, novembro de 2025: mercado brasileiro e participação na ProWine São Paulo.