Vinhos de Neuquén: história, regiões, uvas e vinícolas da Patagônia
Por Sergio Landoni · Sommelier de Território · Embaixador do Vinho de Neuquén
Publicado em 12 de março de 2026 · Versão em português atualizada em 29 de outubro de 2026
Os vinhos de Neuquén ocupam um lugar importante na vitivinicultura da Patagônia argentina. Durante muito tempo, falar da produção da província era falar quase exclusivamente de San Patricio del Chañar. Hoje, esse retrato já não é suficiente. Há vinhedos em diferentes áreas, com histórias, solos, disponibilidade de água e escalas de produção bastante distintas.
O grande polo de San Patricio del Chañar convive com projetos na Confluencia, nas margens do rio Limay, na Comarca Petrolera, no Norte Neuquino e em pontos da Cordilheira. Organizo esse mapa em seis regiões para facilitar a leitura, sem sugerir que todas tenham o mesmo peso produtivo ou condições semelhantes.
Esta guia reúne história, clima, variedades, vinícolas e pessoas. É uma maneira de conhecer os vinhos de Neuquén a partir dos lugares onde as uvas são cultivadas, antes de procurar definições prontas para o que seria um vinho patagônico.
Para conhecer cada área com mais detalhes, leia As seis regiões vitivinícolas de Neuquén.
E para explorar a relação entre vinho, produtos locais e mesa regional: Vinho de Neuquén e gastronomia, experiências do território.
História do vinho em Neuquén
A história da vinha em Neuquén começou muito antes de San Patricio del Chañar. Os primeiros registros documentados remontam ao fim do século XIX, em Chos Malal, então capital do Território Nacional de Neuquén. Por volta de 1891, missionários salesianos introduziram videiras para pequenas plantações ligadas à missão e à comunidade.
Não foram anos fáceis. Gafanhotos destruíram as primeiras plantações, e as cheias do rio obrigaram a recomeçar parte do trabalho. Em 1894, Agustín Martin levou novas estacas de videira da região de Cuyo. Nas décadas seguintes, famílias, pequenos produtores e os salesianos mantiveram o cultivo em escala local.
Na histórica Casa Dewey ainda existem parreiras centenárias. A família produzia vinho, chicha e até um espumante para consumo próprio e para receber visitantes. Hoje, as uvas da propriedade são destinadas a uma pequena elaboração institucional que recupera o nome Casa Dewey e preserva essa parte da história de Chos Malal.
A virada comercial ocorreu no fim dos anos 1990, em San Patricio del Chañar. A água disponível para irrigação, o planejamento dos vinhedos, a tecnologia e a instalação de vinícolas com acesso a mercados maiores deram outra dimensão à atividade. O Chañar não marcou o início do cultivo da uva em Neuquén, mas inaugurou sua etapa moderna.
Depois disso, o mapa voltou a crescer. Surgiram projetos na Confluencia, nas margens do Limay, na Comarca Petrolera, no Norte Neuquino e na Cordilheira. Alguns retomam tradições antigas; outros trabalham em lugares onde, até pouco tempo atrás, quase ninguém imaginava encontrar vinhedos.
Clima, solos e água: o território dos vinhos de Neuquén
Não existe uma única condição natural que explique todos os vinhos de Neuquén. A província é extensa, e cada área precisa ser observada separadamente. Ainda assim, boa parte dos vinhedos compartilha um ambiente continental seco, pouca chuva, vento frequente, muitas horas de sol e uma diferença expressiva entre as temperaturas do dia e da noite.
Clima
Durante o crescimento e a maturação das uvas, essa diferença ganha importância. No Chañar, em Senillosa e em Picún Leufú, as tardes de verão podem ser muito quentes, com registros acima de 40 °C, enquanto as noites frequentemente ficam abaixo de 20 °C. Não são temperaturas médias nem uma regra para toda a província. O diferencial está justamente na combinação de calor diurno elevado e resfriamento noturno acentuado durante uma fase decisiva para a videira. Isso ajuda a compreender a maturação, sem atribuir ao clima, isoladamente, a acidez ou o estilo de cada vinho.
Solos
Os solos variam bastante. Há depósitos aluviais e fluviais, areia, cascalho, seixos rolados e materiais calcários, além de situações específicas de planaltos, vales e áreas próximas à Cordilheira. A drenagem e a capacidade de reter água mudam de uma parcela para outra. Por isso, não faz sentido falar em um único solo de Neuquén.
Água
Em uma região de baixa pluviosidade, a água é decisiva. Muitos vinhedos utilizam água de origem andina, conduzida por rios e canais de irrigação. Em outros lugares, como na meseta de Cutral Co, há projetos que dependem de poços profundos. A qualidade, a disponibilidade e o manejo dessa água fazem parte da identidade produtiva de cada lugar.
Sanidade das uvas
O clima seco, a baixa umidade e a circulação do ar favorecem a sanidade das uvas e podem reduzir a pressão de algumas doenças fúngicas. É uma vantagem concreta para o produtor, sobretudo quando se aproxima a colheita.
Mas sanidade natural não significa ausência de trabalho. Manejo do vinhedo, rendimento, ponto de colheita e decisões na vinícola continuam fundamentais. Quando esses fatores são bem conduzidos, a fruta pode chegar em excelentes condições, com características que merecem ser preservadas na elaboração.
As seis regiões vitivinícolas de Neuquén
Falar dos vinhos de Neuquén como se viessem de um único lugar já não corresponde à realidade. Para compreender essa diversidade, proponho seis grandes regiões. É uma organização territorial de leitura, não uma afirmação de que todas sejam denominações oficiais ou tenham o mesmo desenvolvimento.
San Patricio del Chañar
É o principal centro da vitivinicultura moderna de Neuquén. Nessa meseta irrigada com água do rio Neuquén, o projeto da Bodega del Fin del Mundo, iniciado no fim dos anos 1990, abriu caminho para Familia Schroeder, Malma e vinícolas de diferentes tamanhos. Solos pedregosos, vento, sol intenso e grande amplitude térmica marcam a produção. O Chañar continua essencial para compreender a projeção dos vinhos patagônicos.
Confluencia
Na capital de Neuquén e em seu entorno sobrevivem pequenos vinhedos ligados às antigas propriedades agrícolas e aos ambientes fluviais próximos ao encontro dos rios Limay e Neuquén. Mabellini Wines é uma referência desse cenário, com um vinhedo que hoje convive com o crescimento da cidade. O corredor de Centenario, junto ao rio Neuquén, acrescenta outra expressão de vale, diferente da meseta do Chañar.
Margens do rio Limay
De Senillosa em direção a Picún Leufú, o rio Limay acompanha um corredor de solos arenosos e pedregosos, irrigação fluvial e diferenças térmicas marcantes durante a estação de crescimento. Fincas del Limay é uma referência, ao lado de projetos familiares como Impasse. Há também uma história curiosa com a Ugni Blanc: a variedade chegou por engano de viveiro, no lugar de Chardonnay, e acabou encontrando condições para se desenvolver na região.
Comarca Petrolera
Em Cutral Co e Plaza Huincul, a vitivinicultura acontece em plena meseta, longe dos grandes rios. Vento, baixa umidade, insolação e amplitude térmica fazem parte do cotidiano. A irrigação depende de poços profundos e exige atenção à composição da água. A Bodega Municipal de Cutral Co demonstrou a possibilidade de cultivar uvas e elaborar vinhos nesse ambiente, com variedades como Cabernet Franc, Syrah e Malbec.
Norte Neuquino
Chos Malal e os vales do Alto Neuquén unem os registros mais antigos da viticultura provincial a pequenas iniciativas atuais. Parreiras familiares e produções limitadas convivem com experiências em Chos Malal, Taquimilán, Andacollo, Manzano Amargo e nas proximidades do Domuyo. A Bodega Des de la Torre é uma referência dessa continuidade histórica. Aqui, altitude, água, exposição e clima mudam sensivelmente de um vale para outro.
Cordilheira Neuquina
É uma área ainda emergente, com experiências de pequena escala em San Martín de los Andes, Villa Lago Meliquina, no vale do rio Chimehuín e nas margens do rio Aluminé. Em San Martín estão projetos como Loma Redonda, implantado em 2021, e Ruca Hue, com Pinot Noir e Sauvignon Blanc. Estancia Chimehuín possui vinhedos desde 2004, um antecedente valioso para observar a adaptação ao longo do tempo. Nos setores cordilheiranos, mesmo com tardes de verão que podem chegar a 26–32 °C, geadas e duração da estação de crescimento impõem outros desafios. Ainda é cedo para definir um perfil único para os vinhos dessa região.
O mapa completo, os produtores e as particularidades de cada área estão em As seis regiões vitivinícolas de Neuquén.
Vinícolas e produtores de Neuquén
O universo das vinícolas de Neuquén é mais amplo do que o dos estabelecimentos conhecidos fora da província. Há empresas consolidadas, famílias que trabalham em pequena escala, produtores artesanais e projetos públicos. Para mim, essa convivência é uma das partes mais interessantes da história recente do vinho local.
San Patricio del Chañar concentra a maior estrutura comercial e várias das vinícolas que tornaram Neuquén conhecida em outros mercados: Bodega del Fin del Mundo, Familia Schroeder, Malma e Patritti. Também estão presentes Familia Aicardi, El Chical e Tero Rengo, entre outros projetos.
Na Confluencia, Mabellini Wines mantém viva uma tradição de vinhedos dentro da cidade de Neuquén, enquanto outras iniciativas recuperam a presença da vinha na paisagem do vale.
Em Senillosa e nas margens do Limay, Fincas del Limay, Puerta Oeste e Impasse trabalham em escalas diferentes. Aos poucos, a produção também encontra espaço em propostas de gastronomia e visitação.
Na Comarca Petrolera, a Bodega Cutral Co desenvolve um projeto municipal na meseta patagônica. Em Plaza Huincul, Principios & Finales representa outra forma de produção, artesanal e ligada ao lugar.
No Norte Neuquino, a Bodega Des de la Torre, em Chos Malal, aproxima a história mais antiga da vinha dos projetos atuais. Há outros produtores pequenos que ajudam a ampliar esse mapa.
Também fazem parte dessa paisagem iniciativas como Sudoeste, U24 e Terra Indómita, além de projetos em desenvolvimento em outras localidades. É um mapa que precisa ser acompanhado, porque continua mudando.
Não me interessa estabelecer um ranking de vinícolas. O que essa diversidade mostra é algo mais relevante: os vinhos de Neuquén já não dependem de um único território ou de uma única escala de produção.
Esta guia será atualizada conforme os projetos avançarem e novas informações estiverem disponíveis.
Principais variedades dos vinhos de Neuquén
Uma mesma uva pode encontrar condições bastante diferentes conforme o lugar onde é cultivada. Algumas variedades estão presentes desde o início da fase moderna da vitivinicultura de Neuquén; outras começam a ganhar espaço com a chegada de novos produtores e o estudo de diferentes áreas.
Pinot Noir de Neuquén
O Pinot Noir ocupa um lugar especial na identidade atual de Neuquén. Seu desenvolvimento está ligado sobretudo ao Chañar, mas existem experiências em outras regiões. É utilizado em vinhos tranquilos e espumantes. Para compreender seus resultados, vale observar o local do vinhedo, o momento da colheita e as escolhas de elaboração, não apenas o nome da variedade.
Para conhecer melhor essa uva, leia Pinot Noir de Neuquén: identidade, território e expressão patagônica.
Malbec
O Malbec tem participação importante na área plantada e na produção de Neuquén. Aparece em vinhos varietais e cortes, em projetos grandes e pequenos. É uma oportunidade de perceber como uma uva tão associada à Argentina também encontra expressões próprias na Patagônia.
Cabernet Franc
O Cabernet Franc ganhou espaço nos últimos anos. É encontrado como varietal e em cortes, com resultados que variam conforme o local e o manejo. Vale acompanhá-lo especialmente nas áreas de meseta, sem pressupor que todos os exemplares tenham o mesmo perfil.
Merlot
O Merlot faz parte da história moderna de Neuquén e está presente desde as primeiras etapas de San Patricio del Chañar. Continua oferecendo interpretações interessantes, embora hoje divida a atenção com outras variedades.
Cabernet Sauvignon e Syrah
O Cabernet Sauvignon participa de vinhos varietais e cortes há muitos anos. O Syrah ocupa uma área menor, mas aparece em diferentes projetos, inclusive na Comarca Petrolera e nas margens do Limay. São variedades que ajudam a mostrar a amplitude das escolhas dos produtores.
Chardonnay
O Chardonnay é uma das uvas brancas mais importantes de Neuquén. Pode dar origem a vinhos de diferentes estilos e também participa da elaboração de espumantes, frequentemente ao lado do Pinot Noir.
Sauvignon Blanc e outras brancas
O Sauvignon Blanc está presente em diversas áreas da província. Também existem experiências com Riesling, Sémillon e outras uvas brancas. São caminhos que merecem ser observados ao longo de mais safras.
Cortes e espumantes de Neuquén
Cortes
Os cortes têm um lugar importante na produção de Neuquén. Entre os tintos, combinações de Malbec, Cabernet Franc, Merlot, Cabernet Sauvignon, Pinot Noir e Syrah permitem trabalhar estrutura, fruta e equilíbrio de maneiras diferentes. Cada escolha depende do vinho que o produtor pretende elaborar.
Os cortes brancos são menos numerosos, mas também oferecem possibilidades, combinando, por exemplo, Sauvignon Blanc e Chardonnay com outras variedades.
Espumantes
Os espumantes encontram condições interessantes em vinhedos onde é possível colher uvas com acidez adequada e boa definição aromática. Pinot Noir e Chardonnay são as bases mais conhecidas, embora existam outras experiências.
Os estilos vão de espumantes mais jovens e frutados a rótulos com maior tempo de contato com as leveduras. O resultado depende tanto da matéria-prima quanto do método de elaboração e do tempo de amadurecimento.
Vinhos de Neuquén e gastronomia patagônica
Gosto de pensar os vinhos de Neuquén à mesa, junto dos produtos e das pessoas da região. A harmonização não precisa começar com uma fórmula. Muitas vezes, começa com a experiência de conhecer um produtor, uma receita ou um ingrediente local.
Queijos patagônicos, defumados, carnes bovinas, cordeiro, truta, cogumelos, frutas vermelhas e chocolates abrem muitas possibilidades. Mais interessante do que procurar uma combinação obrigatória é entender o caráter do vinho e o preparo do prato.
Essa relação está desenvolvida em Vinho de Neuquén e gastronomia, experiências do território.
Enoturismo e experiências em Neuquén
Conhecer os vinhos de Neuquén também pode significar visitar os lugares onde são produzidos. San Patricio del Chañar reúne a maior oferta de vinícolas preparadas para receber visitantes, mas novos projetos começam a ampliar as possibilidades em outras regiões.
Vinhedos, produtores, gastronomia e paisagem ajudam a compreender o vinho além da degustação. Visitar uma propriedade e conversar com quem trabalha ali muitas vezes explica mais do que uma descrição no contrarrótulo.
O futuro dos vinhos de Neuquén
A vitivinicultura de Neuquén vive um período de maior diversidade e conhecimento de seus próprios territórios. O estudo de parcelas, a chegada de produtores e as experiências em áreas mais frias abrem novas perguntas e possibilidades.
O Norte Neuquino é especialmente interessante pela ligação entre história e novos projetos. Na Cordilheira, cada safra acrescenta informações sobre a adaptação da videira a condições diferentes das encontradas nos vales e mesetas mais quentes.
O desafio não é apenas produzir bons vinhos. É conhecer melhor cada lugar, compreender suas diferenças e comunicá-las sem reduzir toda a província ao Chañar.
Acredito que o futuro dos vinhos de Neuquén está nessa diversidade: uma identidade provincial capaz de reunir territórios diferentes sem apagar a personalidade de cada um.
Perguntas frequentes sobre os vinhos de Neuquén
O que caracteriza os vinhos de Neuquén?
Boa parte dos vinhedos apresenta clima seco, vento, muitas horas de sol e forte amplitude térmica durante o crescimento e a maturação das uvas. Em áreas como Chañar, Senillosa e Picún Leufú, o calor diurno pode ser intenso, seguido por noites bem mais frescas. Solos, água e manejo variam entre as regiões.
Quais são as principais regiões vitivinícolas de Neuquén?
Para compreender a diversidade, organizo o mapa em seis áreas: San Patricio del Chañar, Confluencia, margens do rio Limay, Comarca Petrolera, Norte Neuquino e Cordilheira Neuquina, esta última ainda emergente.
Onde são produzidos os vinhos de Neuquén?
A maior concentração produtiva está em San Patricio del Chañar. Também há vinhedos na Confluencia, nas margens do Limay, na Comarca Petrolera, no Norte Neuquino e em áreas da Cordilheira.
Quais uvas se destacam nos vinhos de Neuquén?
Entre as uvas de maior destaque estão Pinot Noir, Malbec, Cabernet Franc, Merlot, Cabernet Sauvignon, Chardonnay e Sauvignon Blanc. Também há cortes tintos e brancos e espumantes.
Quais são algumas das vinícolas de Neuquén?
Entre as vinícolas e projetos estão Bodega del Fin del Mundo, Familia Schroeder, Malma, Patritti, Familia Aicardi, Mabellini Wines, Fincas del Limay, Puerta Oeste, Impasse, Bodega Cutral Co e Bodega Des de la Torre, entre outros.
Uma província, diferentes territórios
Conhecer os vinhos de Neuquén é percorrer uma província onde a paisagem muda e cada área oferece uma interpretação diferente da vitivinicultura patagônica.
Esta guia não pretende apresentar Neuquén como um território uniforme. Pelo contrário: por trás do nome da província existem histórias, ambientes, produtores e vinhos distintos.
Entender essas diferenças ajuda a perceber o lugar que Neuquén ocupa hoje na produção de vinhos da Patagônia argentina.
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Guia escrita e atualizada por Sergio Landoni · Sommelier de Território · Embaixador do Vinho de Neuquén, em San Martín de los Andes, Neuquén, Patagônia argentina.